Tornar maior o nosso mundo para caber mais Vida nele.
- Adnan Brentan
- 11 de mai. de 2023
- 6 min de leitura
Atualizado: 19 de jul.

Qual é o tamanho do seu mundo?
Existem mundos de todos os tamanhos. Existem pessoas que enxergam o mundo como imenso, quase sem fim. Existem pessoas que basicamente vivem dentro de suas casas, evitando o contato com o mundo exterior.
As primeiras possuem atração irresistível pela aventura, pela exploração. Já os outros só conseguem se sentir seguros — quando muito — dentro das paredes das próprias casas.
Então, faço a pergunta:
Qual é o tamanho do seu mundo?
Como surgiu a ideia para refletir sobre este assunto?
Como surgem todas as ideias e temas relevantes: começou com a necessidade de entender algo que acontece em nossa vida e nos impacta de alguma forma.
Eu e minha esposa já estamos na meia-idade e, consequentemente, nossos pais já estão bem mais avançados na vida. Em nossas conversas, com frequência manifestamos preocupação com o bem-estar e a saúde de nossos queridos e amados "velhos".
Percebemos que, conforme avançam em idade, vão perdendo energia e tendo mais dificuldades físicas para se manterem em movimento. Embora em grau distinto em cada um, um dos sintomas mais evidentes é a falta de disposição para ir "para fora".
Alguns deles, na juventude e plenitude, conseguiam se afastar e ficar um bom tempo a milhares de quilômetros de distância de seus lares. Também optaram, em algumas fases, por mudar o próprio lar de cidade, estado e até país. As distâncias não os intimidavam — pelo contrário, essas mudanças eram encaradas como grandes aventuras que os motivavam e lhes traziam satisfação.
Esses desafios eram combustível para a felicidade e o crescimento pessoal.
Mas a realidade é que, paulatinamente, o ímpeto e, talvez, a coragem vão se reduzindo em potência e ocorrência.
O ciclo do encolhimento
Talvez seja natural. Afinal, nosso mundo começa muito bem delimitado no ventre de nossas mães — e sair da paz, tranquilidade e proteção desse mundo, dizem, é muito doloroso. Depois vem o berço. Depois do berço vem a casa. Depois da casa, o nosso bairro (e a escola). Em algum momento, começamos a nos movimentar com autonomia e liberdade pela nossa cidade. De repente, estamos realizando nossas viagens já longe dos olhares e da proteção direta dos nossos pais.
Alguns tomam gosto por essa liberdade de poder se transportar fisicamente para diferentes regiões, diferentes culturas, diferentes idiomas. Conhecem lugares e estabelecem laços com várias pessoas. Ganham o mundo através desse espírito de aventura. O seu mundo fica muito grande, quase infinito.
"Não acredito na existência de um talento específico para viajar. As pessoas que, nas viagens, se familiarizam, rápida e amorosamente, com o meio estranho e de percepção inata para as coisas verdadeiras e valiosas, são as mesmas que já descobriram o sentido da vida em si e que sabem seguir a sua boa estrela.Uma vívida saudade das fontes da vida, um anelo de sentir-se amigo e uno com tudo que vive, cria e cresce, é a chave que abre os segredos do Mundo, e a que se procura obedecer, não apenas nas viagens distantes, mas também no ritmo da vida e a experiência diárias."– Hermann Hesse
Mas, com a mesma naturalidade, distraidamente, junto com o vigor e a curiosidade decadentes, vamos encolhendo também as nossas fronteiras pessoais. Começa a ficar difícil tomar aquele avião, percorrer aquela distância mais longa em um carro ou ônibus. Até nos cansa caminhar até a padaria. Cansamos até de pensar!
O cansaço começa a tomar uma forma de insegurança. Ficamos apreensivos por realizar grandes jornadas e, depois, até as pequenas, que antes nos motivavam e nos traziam satisfação e alegria. O medo, que sempre esteve presente, mas não nos impedia de realizar as coisas, agora é um "valor" dominante, e a maioria das decisões (ou indecisões) são balizadas por ele.
De jovens aventureiros corajosos, nos permitimos transformar em "velhos" acomodados e medrosos. Personalidades antes brilhantes e nutridoras agora são sujeitos acomodados e inseguros. Antes nossas fronteiras eram o mundo; em algum momento se tornam nossa cidade, depois nosso bairro, depois nosso condomínio, depois nosso apartamento ou casa — e, finalmente, se tornam nosso leito. Nosso corpo sempre a colapsar, e nosso mundo a encolher.
A vida como respiração
É como se a vida fosse uma longa e profunda respiração.Primeiro, ao mesmo tempo que expandimos nossas fronteiras, inspiramos o mundo, nos inflamos de vida, de diversidade.Depois, vamos restringindo nossos movimentos, vamos murchando a vida, vamos nos tornando monotemáticos.
Uma parte mais sóbria e "conservadora" do meu ser vai afirmar que este é um processo natural e inevitável.
Será?
Outra parte mais alegre e "aberta" do meu ser vai afirmar que não é bem assim.
Não é!
Usar ou perder
Muito do que perdemos em relação à saúde, mobilidade e plasticidade está diretamente relacionado com o uso e o cuidado com nosso corpo físico e, principalmente, com a nossa mente e ideias.
Modernamente já é fato, mais do que comprovado, que o que ingerimos (alimentação) e como usamos nossos corpos (exercícios/treinamento) pode retardar e até recuperar a saúde e mobilidade.
Nosso corpo é um equipamento incrível:
Se nós o usamos, nós o ganhamos! Se nós não o usamos, nós o perdemos!
E como funciona a nossa mente? Da mesma forma:
Para mantê-la forte, é preciso nutri-la. Para mantê-la afiada, é preciso usá-la e estimulá-la!
Na nutrição da mente, é fundamental consumir boas ideias, consumir bons sentimentos. Mas, assim como com o corpo físico, não basta ingerir bons alimentos — é fundamental restringir a dieta de alimentos pobres e nocivos (superprocessados e inflamatórios). Também é assim com a nossa mente: precisamos deixar de consumir lixo psicológico para mantê-la mais limpa.
Uma mente mais limpa é essencial para uma vida feliz e significativa.
A importância da dimensão espiritual
"A dimensão espiritual é o seu centro, seu íntimo, seu comprometimento com o sistema de valores. Trata-se de uma área muito pessoal da vida, de importância suprema. Ela se nutre das fontes que o inspiram e elevam, vinculando-o às verdades eternas de toda a humanidade. Cada pessoa faz isso de forma muito, muito diferente. Eu encontro consolo e renovação nas orações meditativas das sagradas escrituras, porque elas refletem o meu sistema de valores. Conforme leio e medito, eu me sinto renovado, equilibrado e pronto para ajudar os outros.A imersão na literatura ou na música de qualidade pode renovar os espíritos de algumas pessoas. Outros conseguem isso na comunhão com a natureza. A natureza abençoa aqueles que se comunicam com ela. Quando você consegue deixar para trás o barulho e a agitação da cidade grande e se entregar à harmonia e ao ritmo da natureza, volta renovado. Durante algum tempo, não se perturba, não se abala, até que, gradualmente, o barulho e a tensão externa começam a invadir aquela sensação de paz interior."– Stephen R. Covey
Velhos jovens e jovens velhos
Tenho conhecido muitos velhos de vinte e poucos anos e tenho convivido com muitos jovens com mais de 60 anos. Por isso posso afirmar:
É possível morrer jovem o mais tarde possível!
O físico conta? Claro que conta bastante.
Mas o espírito e a mentalidade são muito mais importantes para manter a juventude até o fim da vida.
"Cidadãos! Este é o exemplo que os velhos dão aos moços.Nós — hesitamos, ele veio!Nós recuamos, ele avançou! Eis o que os que tremem de velhice ensinam aos que tremem de medo! Este ancião é augusto diante da pátria.Teve vida longa e morte magnífica!"– Victor Hugo, Os Miseráveis

Impossível, ao escrever esta reflexão, não lembrar do querido Mario Nakatani.
Em maio de 2016, um idoso de 69 anos me procurou para subir a primeira montanha. Eu até tentei dissuadi-lo da ideia, mas ele insistiu e subiu a tal montanha comigo (Mãe Catira). Teve bastante dificuldade para subir, devido ao problema crônico de asma. Lembro que estava frio e começou a chover já perto do cume. Na descida, escorregou e rolou no barro algumas vezes. Pensei comigo: Esse nunca volta...
Mas ele voltou — e voltou sempre.
Nos anos seguintes, realizou muitas trilhas e viagens, subiu muitas montanhas. Durante um tempo foi o meu cliente-amigo mais frequente — e não foi só comigo, ele fazia trilhas e viagens em quase todas as semanas.
Como era a sua personalidade e disposição? Sempre bem-humorado, sempre bem-disposto, embora sempre cansado, como ele gostava de brincar — mas sempre conquistando montanhas e, principalmente, conquistando admiradores e amigos, pois era ótimo de papo e sempre estava ajudando e motivando aos demais na trilha (e fora dela).
Cinco anos e quatro meses depois, na véspera de completar 75 anos, um infarto fulminante o retirou deste mundo. Já bastante adiantado em idade — mas ainda muito jovem.
O seu mundo era imenso!
Repito novamente a pergunta:
Qual é o tamanho do seu mundo?
P.S.
Angela, como você sugeriu, escrevi sobre o assunto — mas não consigo fazê-lo “curtinho”. Haha!
Aliás, como as pessoas estão preguiçosas para ler...Às vezes passam horas rolando o feed nas redes sociais, mas não conseguem ter atenção suficiente para ler algo significativo por mais de 3 minutos.
"Descobri que fazer uma viagem especial é a opção prioritária de todos a quem perguntei qual era a expectativa que lhes transmitia mais energia emocional.Quando você dá a si mesmo algo especial para desejar, livra-se do fardo de se sentir amarrado à rotina.Para de achar que sua vida é uma esteira rolante à qual está preso.Todos que anseiam por algo maravilhoso se sentem mais leves e livres."– Mira Kirshenbaum, Energia Emocional
Abaixo o Mario em setembro de 2019 descendo a tirolesa em Ribeirão Claro
Gostei muito do texto. Obrigada