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  • Foto do escritorAdnan Brentan

Afinal, por que Gilgamesh?


Há uma pergunta que ouço com considerável frequência:

Por que Gilgamesh?


Para quem é um pouco mais curioso e gosta de uma boa história, segue uma explicação mais cuidadosa do motivo do nome.

Para responder preciso primeiro de algum contexto filosófico:


Considerada a mãe de todas as histórias o mito de Gilgamesh remete a 2.750 a.C. Isso mesmo, mais de 4.750 anos atrás.

Tem origem na Suméria, mas sua versão mais acabada é da antiga Babilônia.


Gilgamesh é o arquétipo do herói, um homem poderoso (rei) dotado de força e coragem inigualáveis, mas também de defeitos da mesma envergadura, como crueldade e despotismo. Muito da transformação de Gilgamesh, de um tirano egoísta em um líder sábio e virtuoso, ocorre na vivência e superação de grandes desafios impostos pela vida. O processo acontece principalmente em duas fases, a primeira é quando os deuses enviam um ser tão forte quanto ele, só que mais selvagem e mais puro, para enfrentá-lo.


"Que um coração tempestuoso se lhe oponha,

Rivalizem entre si e Úruk (cidade) fique em paz!"

Epopeia de Gilgamesh - tradução Jacynto Brandão


Enkidu contrapõe Gilgamesh em combate que dura dias, mas nenhum dos dois sai vitorioso. Após isto tornam-se grandes amigos inseparáveis e passam a percorrer o mundo vivendo grandes aventuras. Em algum momento, por abuso de ambos, os deuses decidem por bem castigá-los. Enkidu perde a vida e Gilgamesh se vê novamente solitário, inconsolável pela perda do amigoirmão e revoltado com a possibilidade dele mesmo vir a morrer.

A partir daí inicia-se a segunda fase na qual Gilgamesh gasta muitos anos percorrendo o mundo tentando obter a imortalidade reservada somente aos deuses. Retorna de sua grande jornadaaventura sem conquistar a imortalidade, mas conquista a sabedoria. Se ele não se torna imortal, sua história e ensinamentos são imortalizados.


"Explorou de todo os tronos,

De todo saber, tudo aprendeu,

O que é secreto ele viu, e o coberto descobriu.

De distante rota volveu, cansado e apaziguado,

Numa estela se pôs então o seu labor por inteiro." Epopeia de Gilgamesh


Mas na época o nome não surgiu do nada, foi mais ou menos acidental.

Em 24 de maio de 2009 foi a primeira vez que guiei de forma organizada. A montanha foi o Pico Itapiroca. Na época os participantes eram na maioria da Nova Acrópole, escola de filosofia onde eu ministrava aulas de Filosofia à Maneira Clássica de forma mais ou menos amadora, mas com um legítimo espírito filosófico (buscar a sabedoria). Em outro momento conto melhor o que motivou a formação do grupo e as conquistas, no início mensais, das nossas montanhas regionais.


A questão é que sabia da importância de nomear o, ainda, grupo para que criasse uma identidade própria. Sempre gostei de mitologia e durante quase dois meses fiquei procurando inspiração para que o nome surgisse com força e naturalidade.

Numa manhã, fazendo hora, no aeroporto Afonso Pena, me deparei com uma versão romanceada da epopeia, um dos livros que está na foto. Já conhecia em linhas gerais o mito de Gilgamesh, mas nunca havia tido contato com a história original. Ao abri-lo, já nas primeiras páginas, fiquei encantado e naquele momento tive a certeza de que este deveria ser o nome do grupo de montanhismo, caminhadas na natureza e aventuras.


Por que tive tanta certeza? Segue um trecho do início da obra:


O nascimento de Gilgamesh (A.S. Franchini & Carmem Seganfredo)

O monte Mashu está situado em frente ao vasto pórtico do Mundo, onde o sol todos os dias se ergue. Como um gigantesco marco, a portentosa montanha está ali afixada desde a criação do mundo, a delimitar as fronteiras do céu e da terra.

Mashu quer dizer "monte gêmeo" e é tão alto que o cume do mais elevado dos seus picos chega a perfurar duas vezes o céu. Homem algum pode enxergar-lhe o topo, pois este é um privilégio reservado somente aos deuses.

É no pai de todos os cumes de Mashu que uma jovem de incomparável beleza, fora do alcance de qualquer mortal, prepara-se para dar à luz o seu filho. Sua beleza é inacessível aos mortais porque ela não é uma mera mortal, mas Ninsum, a deusa suprema de Uruk. Por isto mesmo, o fruto do seu ventre será um misto de homem e deus: um terço divino e dois terços humano. Mas se o filho da deusa não será um homem comum, tampouco será uma divindade. Devido a sua natureza predominantemente humana, o novo ser não poderá usufruir da dádiva maior dos deuses: a imortalidade.

Fatalidade com a qual o futuro rei de Uruk jamais irá se conformar.


O nome do filho, Ninsum já tem nos lábios: Gilgamesh, "o antigo ancestral renascido".


O grupo acabou se tornando empresa, os objetivos e desafios evoluíram, mas a inspiração em Gilgamesh continua sendo a mesma.


EPOPEIA DE GILGÁMESH

Trechos da tradução de Jacyntho Lins Brandão


Alto é Gilgámesh, perfeito, terrível:

Abriu passagens nas montanhas,

Cavou cisternas nas encostas do monte,

Atravessou o mar, o vasto oceano, até onde nasce Shámash (o sol),


Palmilhou os quatro cantos, em busca de vida,

Chegou, por sua força, ao remoto Uta-napíshti,

Repôs os templos arrasados pelo dilúvio,

Instituiu ritos para toda a humanidade.

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