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  • Adnan Brentan

Por que começar a fazer trilhas na natureza? (parte 2)



Considero que quando alguém me procura para fazer uma trilha na natureza e, mesmo eu reforçando os perigos envolvidos, ela se inscreve. No final das contas, quando falo dos riscos, acabo por instigar ainda mais o seu gosto (secreto ou não) pela aventura.


Estamos vivendo numa época onde se preconiza exaustivamente a necessidade de segurança. A busca de segurança nasce do medo! O medo é ferramenta essencial para a sobrevivência e manutenção de uma espécie, não há dúvida sobre isso.

Mas o que leva a humanidade à evolução? O que leva a humanidade a seguir adiante apesar dos perigos?


Faz poucos anos, devido a minha nova forma de servir que é, entre outras coisas, guiar em atividades na natureza, realizei algumas cuidadosas e demoradas reflexões sobre a aventura e o que isso representa. Não fiz isso totalmente sozinho e busquei um pouco da experiência de pessoas e livros relacionados com o tema e até não, aparentemente, relacionados. De forma muito resumida e parcial cheguei a conclusão de que a aventura é a principal forma de alcançar a evolução humana.


A aventura é a autêntica necessidade de explorar o que está lá adiante, o ainda não visto, tocado ou sentido. É o adentrar em território inexplorado, é o impulso interno de tornar conhecido o desconhecido. É a genuína busca de conhecimento. Poeticamente falando, é a nossa sutil e, ao mesmo tempo, intensa vocação para o mistério.


Quando evitamos os riscos, simplesmente não realizando uma atividade classificada como perigosa, ou quando incluímos muitos aparatos, mecanismos e condutas de segurança para torná-la "totalmente" segura, percebo que perdemos autonomia. Isso mesmo, na busca de controle, delegamos parte importante da experiência a terceiros, sejam eles outros seres humanos ou equipamentos. E quando abrimos mão da experiência integral perdemos boa parte do aprendizado e da vivência que aquilo representa.


Para aventurar-se é preciso correr riscos, é preciso desafiar-se, é preciso abrir mão da segurança (ainda que em parte).


A pessoa aventureira carrega aquele sentimento/intuição, tão comum em uma trilha/aventura, de querer saber, de conhecer, de se encontrar com o que existe para além daquela curva, para além daquele obstáculo. Que vista há para além daquele cume?


"Além desses limites estão as trevas, o desconhecido e o perigo, da mesma forma como, além do olhar paternal, há perigo para criança e, além da proteção da sociedade, perigo para o membro da tribo. A pessoa comum está mais do que contente, tem até orgulho, em permanecer no interior dos limites indicados, e a crença popular lhe dá todas as razões para temer tanto o primeiro passo na direção do inexplorado."

Joseph Campbell - O Herói de Mil Faces



Por isso os ambientes naturais pouco ou nada adulterados são espaços ideais para exercitarmos este instinto de evolução, para fazer este movimento em direção ao desconhecido, para testar nossa capacidade de resposta, de adaptação, de resiliência, de coragem. Lá não haverão (ou quase) formas pré-definidas, não haverá escadas regulares revestidas de antiderrapante, corrimões retos e ergonômicos. Cada passo precisará ser "calculado", o olhar precisará estar atento a tudo, nosso tato testará a resistência e textura de galhos, raízes, rochas em tempo imediato. Vamos usar cada um de nossos sentidos o tempo todo para sentir o ambiente e "dominá-lo". É claro que quanto mais experiente você for, menos se dará conta disso, mas isso não elimina o perigo e a necessidade de atenção e cuidado constantes.


E sabe o que acontece com quem retorna de uma aventura/desafio na natureza. No geral ela retorna cansada, às vezes até um pouco machucada fisicamente. Porém, se houve genuíno espirito de aventura, ela retorna mais capaz de lidar com outros tipos de adversidade, ela retorna mais confiante, mais independente. Ela retorna com mais capacidade de enfrentamento e crescimento nas outras áreas da sua vida.


Você pode perguntar: Mas Adnan, não é arriscado para você colocar pessoas em situação de risco? Claro que é e se eu desse importância demais para este meu lado cauteloso (que é forte) provavelmente estaria trabalhando com qualquer outra coisa "mais segura". Vou contar um segredo: Embora uma parte minha estremeça quando vejo um clienteamigo se expondo ao risco outra parte expressa um sincero e relaxado sorriso de cumplicidade e admiração. É assustador mas muito gratificante poder participar destes movimentos de descoberta, de coragem, de superação e de crescimento. Eu acredito que o risco que eu corro vale a pena quando ajudo alguém a aprender a vencer os perigos.


Tudo começa nas pequenas aventuras com seus pequenos perigos, mas de aventura em aventura a humanidade continua evoluindo e crescendo em conhecimento e capacidade de realização. As ciências (conhecer e entender o desconhecido na natureza), as filosofias (conhecer e entender o desconhecido na alma humana), as religiões (conhecer e entender o espírito, aquilo que nos transcende) são em essência formas de aventura, formas de buscar e conhecer o mistério que há pela frente, de superar barreiras, de expandir horizontes, de diminuir o sofrimento, de buscar a felicidade.


Este também é um ótimo motivo para fazer trilhas na natureza:

Se arriscar um pouco!


"Quando os playgrounds são seguros demais as crianças deixam de brincar neles ou inventam maneiras inadequadas de brincar. Elas precisam que os playgrounds sejam perigosos o bastante para continuarem desafiadores. As pessoas, incluindo as crianças (que também são pessoas, afinal de contas), não buscam minimizar riscos. Mas sim otimizá-los. Elas dirigem, andam, amam e brincam para que alcancem o que desejam, mas ao mesmo tempo se desafiam um pouco, também, para que continuem se desenvolvendo.

Quando somos livres - e encorajados - preferimos viver no limite. Lá, podemos estar confiantes sobre nossa experiência e confrontar o caos que nos ajuda a nos desenvolvermos. Somos programados, por essa razão, para gostar do risco (algumas pessoas mais do que outras). Quando nos esforçamos para otimizar nosso desempenho futuro nos sentimos revigorados e empolgados, agindo no presente. Caso contrário, arrastamo-nos por aí, como uma preguiça, inconscientes, amorfos e apáticos. Se superprotegidos, fracassamos quando algo perigoso, inesperado e repleto de oportunidades surge de repente, como inevitavelmente acontecerá." Jordan B. Peterson


Mais motivos existem e serão tratados em outras publicações!


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