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  • Adnan Brentan

Por que, às vezes, precisamos viajar para tão longe?

"Quando estiver desempenhando qualquer atividade, pergunte-se:

Se eu fosse a última pessoa na Terra, ainda estaria fazendo isso?" Steven Pressfield



A caminho da Chapada Diamantina tentava usar melhor meu tempo durante o voo que me levava até Salvador relendo a linda e inspiradora obra A Alma Indomável, mas, não sei se foi influência do belo e assertivo texto ou se foi pela expectativa de uma viagem incrível, senti-me impelido a registrar e responder uma pergunta que faria aos meus companheiros de jornada na primeira manhã quando já estivéssemos por lá. Mas, ao verter as palavras na pequena tela do meu celular, percebi que a pergunta primeiro dizia respeito a mim mesmo (quase sempre é assim e todas as perguntas importantes que desejamos fazer aos demais primeiro devem ser respondidas por nós mesmos), dizia respeito as minhas mais profundas intenções em proporcionar e participar da experiência incrível que se iniciaria.


"Porque somos livres, é possível respondermos, bem ou mal, às perguntas da vida." Aldous Huxley


O que nós estamos fazendo aqui? Aqui e agora?


Muitas respostas vão surgir, umas óbvias e outras nem tanto:

Estou aqui para conhecer a Chapada Diamantina.

Estou aqui para ter alguns dias de folga.

Estou aqui para ver lugares bonitos.

Estou aqui para experimentar uma cultura e hábitos diferentes dos meus.

Estou aqui para ter contato com a natureza em um ambiente menos adulterado pelo ser humano.

Estou aqui para me desafiar.


Todas estas e outras respostas são verdadeiras, mas, ainda assim, não representam a totalidade do que podemos vivenciar aqui. Mas eu gostaria de chamar a atenção para uma capacidade genuinamente humana, um dom humano que, embora seja latente em todos, é cada vez mais negligenciado no nosso cotidiano.


"O sossego, o lugar agradável, a amenidade dos campos, a placidez dos céus, o murmúrio das fontes e a tranquilidade do espírito são de grande ajuda para que as musas estéreis se mostrem fecundas e ofereçam ao mundo partos que o encham de maravilha e alegria." Miguel de Cervantes


Muitos sábios e conhecidos mestres da humanidade apontam para a grande importância da contemplação, alguns até afirmam que a real felicidade pode ser alcançada na experiência da contemplação.


Mas o que é a contemplação?

Poderíamos afirmar que contemplação é olhar de forma relaxada com atenção e foco à algo externo a nós que por genuína beleza é capaz de nos impactar e silenciar o falatório interno de preocupações, lembranças, ansiedades, angústias, expectativas,... mesmo que este falatório diga respeito a coisas consideradas boas e prazerosas para nós. Quando nos entregamos voluntária e espontaneamente ao contemplar uma paisagem, uma obra de arte, uma criança sorrindo, uma boa ação,... algo em nós (ou para além de nós) é capaz de se conectar com esta realidade subjacente e ao mesmo tempo plena e, mesmo que seja por um instante, esta conexão é uma conexão com tudo. Mesmo que por uma fração de segundo estamos ligados e deixamos de nos sentir sozinhos. Neste instante não existe a separação e tudo aquilo que surge dela não nos oprime, não nos amedronta, não nos afasta da verdadeira fonte da Vida. Por um tempo percebemos que estamos com todos, estamos com tudo, estamos com Deus. Mais do "estamos com", "somos com". Somos com todos, somos com tudo, somos com Deus.

Contemplação é conexão, conexão com a realidade-vida-amor que a tudo une. Contemplação é superar a ilusão persistente da separatividade.



"O amor não é um conceito intelectual nem um imperativo moral, nem qualquer outra coisa. É a emoção de fundo que existe quando alguém está ligado na energia que existe no universo, que é a energia de Deus." James Redfield


Mas por que precisamos nos deslocar milhares de quilômetros para experimentar esta conexão?


Talvez porquê precisemos sentir que nos deslocando de nosso território corriqueiro, poderemos nos deslocar de nossas compulsoriedades cotidianas. Deixamos "longe" o nosso lugar comum e por isso nos permitimos viver o incomum, nos permitimos viver o extraordinário.

Talvez também porquê com toda esta abundância de genuína beleza externa, seja "mais fácil" contemplar e criar conexões reais.

Dizem os mestres que esta mesma conexão poderia ser criada em qualquer lugar e qualquer situação, mas aqui, vamos concordar, existem condições "mais favoráveis".


Por isso venho fazer um chamado para o necessário esforço interno para vivenciarmos toda esta experiência da forma mais plena possível.

Todo o planejamento, empenho e preparação que fiz e faço (tudo o que eu poderia desejar) é para que vocês possam ter alguns vislumbres desta realidade maior possível. E que, mesmo sem perceber, possam voltar, para os seus "lugares comuns", mais conectados e felizes, mais inteiros e fortalecidos, mais preparados para tornar suas vidas mais ricas. E, mesmo sem se dar conta, sejam capazes de inspirar pessoas, através dos seus exemplos, a fazer o mesmo.


"Não devemos parar de explorar. E o fim de toda a nossa exploração será chegar ao ponto de partida e ver o lugar pela primeira vez." T. S. Eliot


Obrigado por me permitirem compartilhar esta experiência!



"...cada vez que entro em contato pelo olhar ou por outro de meus sentidos com uma partícula da natureza, quando sou por ela atraído e encantado e me abro, por um instante, à sua existência e à sua revelação, deixo no mesmo instante o mundo avarento e cego da insuficiência humana e, em vez de pensar ou de ordenar, em vez de adquirir ou explorar, de criticar ou de organizar, por um momento não faço outra coisa a não ser "admirar" como Goethe, e com esse maravilhar-me não me torno apenas irmão de Goethe e de todos os outros poetas e sábios, mas também me torno irmão de tudo a que admiro e a que, como mundo vivo, me uno: da borboleta, da nuvem, do rio e da montanha, pois pelo caminho de admirar fujo, por um instante, do mundo de separações e entro no mundo da unidade, lá onde uma coisa criada e uma criatura dizem um ao outro: Tat twam asi ("Isso és tu"). Hermann Hesse



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