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  • Foto do escritorAdnan Brentan

A beleza está nos olhos de quem vê. (será?)

Atualizado: 26 de abr.


Com o grande "despertar" e enaltecimento do relativismo moderno muitas frases ou termos são utilizados quase como argumentos irrefutáveis que tem a intenção de encerrar qualquer discussão sobre certos conceitos e ideias polêmicas. Frases e palavras quase que são considerados mágicos quando proferidos. Eu na minha assumida ignorância, e com a minha impertinente qualidade de querer entender as coisas por conta própria, tenho a irritante mania de questionar a interpretação que está na moda e buscar a inspiração original destas palavras ou frases enfeitiçadas.

(tenha paciência e continue lendo (até o final))


Pesquisando esta frase na internet a ocorrência mais comum é ser associada ao poeta espanhol Ramón de Campoamor y Campoosorio que viveu no século XIX. Com um pouco de trabalho encontrei o livro, Doloras y Poemas, e a poesia específica, Bellezza, com a frase: "La belleza sólo está en los ojos de quien mira."


Numa direta e rasa tradução: "A beleza só está nos olhos de quem vê."


A inclusão da palavra "só" (apenas, somente) torna a ideia ainda mais confusa levando a crer que não existe a beleza fora dos olhos (mente) de quem a considera. Quem tiver a curiosidade de procurar esta frase, ela é usada, num de seus poemas, como o tal argumento "lacrador" (preferia usar outra palavra, mas...) que um rei usa para encerrar uma discussão (baseada em opiniões) sobre a beleza.


Outra atribuição menos comum é afirmar que a frase é original de Platão (filósofo grego 428 a.C.-347 a.C.) e daí a coisa fica ainda mais complicada, pois já li os principais diálogos de Platão e não me recordo (alguém me corrija) de em nenhum momento Platão relativizar a Beleza, pelo contrário:


"Bondade para Platão é a prioridade universal na qual todas as coisas verdadeiras participam e da qual existem, e a Bondade é revelada ao homem através da Verdade. A Beleza ajuda a despertar a Bondade no homem, somos atraídos para a Bondade e Verdade através da Beleza. Só é Belo aquilo que realmente nos leva a Verdade e a Bondade, quando aquela é amputada destas não há mais desejo legítimo, pois a real Beleza deve sempre despertar nossa areté e as virtudes clássicas (sabedoria, temperança, justiça e coragem)."


Para Platão a Beleza era objetiva, mas para podermos reconhecê-la e acessá-la podemos ir galgando níveis de beleza até chegar a Beleza divina e imortal. Começamos admirando os corpos (forma) e evoluindo vamos aprendendo a reconhecê-la na ações, nas virtudes,...


Minha interpretação da frase, sem precisar alterá-la em nenhum termo, é de que quando afirmamos que "a beleza está nos olhos de quem vê" estamos dizendo que só somos capazes de reconhecer a beleza porque ela já está dentro de nós. Quando nossos olhos contemplam e reconhecem a beleza é porque já a possuímos nós mesmos em essência. A beleza em nós reconhece e ama a beleza fora de nós.


Plotino no Tratado das Eneadas vai mais longe e propõe que o próprio Amor nasce de um ato de contemplação da Divindade admirando a si mesma:


"O Amor emanou do encontro da ardorosa contemplação com o objeto contemplado: como o olho pleno do que vê, como uma visão que tem em si a sua imagem. Provavelmente, seu nome [Erôs] vem daí, do fato de ele ter sido produzido pelo ato da visão (horasis). O amor (erôs) estado da alma, por sua vez, tira o nome do Amor (Êros) considerado como deus, pois a essência é anterior ao que não é essência. O amor estado de alma terá o mesmo nome do Amor deus, embora seja apenas um ato particular dirigido a um objeto particular."


Faz um bom tempo que a contemplação tem sido para mim um especial tema de reflexões. Ela aparece na fala de muitos autores e pensadores, sábios e santos. Às vezes exatamente com esta palavra e outras vezes como algo muito similar. A questão é que a contemplação é muito mais poderosa do que poderia sugerir um ato aparentemente passivo.


Também já ponderei sobre como o coração é fonte e canal da energia divina que, armazenada nele, é assumida como própria. Portanto para receber energia e transmitir energia é preciso estar com o coração aberto. Provavelmente a principal forma e nome desta energia, que compreendemos, é o amor. O amor conecta e vivifica a tudo que ele toca.


De forma muito resumida, sabemos que o amor pode ter muitos níveis, desde o mais sublime que nos conecta com o próprio Deus, até o mais vulgar que provoca a atração dos corpos, mas ainda assim podemos chamá-lo de amor.


Se o coração é fonte e canal do amor (energia divina) como fazer que este esteja aberto o suficiente para permitir que a energia entre e flua por ele?

Como canal e fonte posso dizer que ele é uma válvula, um portal. Como abrir este portal?


Em algumas falas destes autores e pensadores, sábios e santos, eles se referem ao poder que a contemplação tem de nos equilibrar, tranquilizar e energizar. Quando contemplamos algo, físico ou abstrato (sentimentos, pensamentos) que expresse e contenha beleza, com uma visão plena, sem filtro, integral, sem expectativa, profunda e leve ao mesmo tempo, com foco e até com reverência e admiração, somos preenchidos com uma energia especial, aquela que nos vivifica, inspira e motiva.


Portanto concluo que a contemplação pode ser um interruptor do coração, um estímulo que provoca a abertura e mantém ele aberto tempo suficiente para ser recarregado desta energia/amor divino.


Se o Amor (com maiúscula) nasceu de um ato de contemplação, o que o ato de contemplar pode realizar em nós?


Acredito que ao contemplarmos a beleza externa a nós, na verdade estamos revivendo este ato primeiro que fez emanar o Amor, estamos recriando o amor em nós mesmos. Reconhecemos no objeto contemplado a própria essência de Deus que é também a nossa essência. Assim, ao contemplar, abrimos o coração e permitimos que a energia divina nos preencha e flua através de nós.


Por isso faz algum tempo que defini como uma das minhas missões especiais:

Incentivar e facilitar a contemplação do belo, especialmente, na Natureza. Resgatar a vivência desta prática altamente espiritual.

Experimentar a Natureza de forma contemplativa é um ato religioso (ligação com o divino).


"A contemplação, porém, mesmo a terrena, é capaz de saciar o homem mais do que qualquer outra coisa, porque ela se apercebe diretamente da presença de Deus; é por meio dela que experimentamos a felicidade máxima que a nossa existência físico-histórica é capaz de experimentar e de suportar." Josef Pieper - Ócio & Contemplação


“Pela própria definição, dada por Tomás de Aquino em sua Suma teológica, a beleza suspende o movimento. A beleza é em si mesma uma cura para o mal-estar psicológico.” James Hillman


Joe Vitale e Ihaleakala Hew Len no livro Limite Zero afirmam:

"o limite zero envolve o retorno ao estado zero, no qual nada existe mas tudo é possível."

"Quando agimos a partir do estado zero no qual não existe limite, não precisamos de intenções. Simplesmente recebemos e agimos. E milagres acontecem."


Muito resumidamente afirmam que a inspiração (divina) surge deste estado de vacuidade, de silêncio interior, de uma forma de vazio. Isso vai de encontro, como afirmei antes, com vários autores, várias tradições, vários mestres da humanidade. Você, de certa forma, precisa se esvaziar de "si mesmo" para preencher-se de Deus.


"Nesse estado de abertura silente da alma, o ser humano talvez receba até o dom de descobrir "qual é a força que mantém o mundo unido em seu íntimo", mesmo que a clareza súbita seja condensada tão-somente na duração de um raio, de modo que a apreensão intuitiva desse instante precise ser redescoberta depois em horas e horas de "trabalho" concentrado." Josef Pieper


“Os ideais que sempre brilharam diante de mim e me encheram de alegria de viver são o bem, a beleza e a verdade.” Albert Einstein


Contemplar inicialmente é alcançar esta beleza que permeia as coisas materiais, e, num segundo momento, ser capaz de reconhecê-la como reflexo e imagem das coisas mais elevadas e espirituais.

Então a contemplação pode e vai nos recarregar da energia criativa do amor:

"O que é assimilado na contemplação é gasto no amor." Eckhart


"Devemos atrair os bens da eternidade para podermos dar os bens temporais. Mas os bens da eternidade não podem ser obtidos a não ser que cedamos pelo menos um pouco de nosso tempo aguardando-os em silêncio. O amor à verdade procura o ócio santo; a necessidade do amor empreende a ação justa." Aldous Huxley


"O principal é o começo: abrir os olhos.

Prestem um pouco de atenção, e pelo resto hão de sentir um pouco de bem-estar e de convivência com a natureza...

Quem começou, pode ver coisas preciosas numa caminhada, sem perder um minuto de tempo. E essa contemplação absolutamente não cansa, mas fortifica e repousa, e não só os olhos." Hermann Hesse - Pequenas Alegrias


Por isso quando realizamos alguma atividade na Natureza, de forma respeitosa, guardando um pouco de silêncio, e, sobretudo, abertos para suas belezas e mistérios, retornamos mais vivos, mais tranquilos, mais amorosos e até mais inteligentes.


"Deus está por traz de tudo, mas tudo a Deus esconde. As coisas são negras, as criaturas são opacas. Amar alguém é torná-lo transparente."

"Todas as obras de Deus são feitas para servir o amor. O amor é bastante poderoso para encarregar toda a natureza para levar-lhe as mensagens." Victor Hugo - Os Miseráveis


Poderia colar abaixo mais algumas páginas de elogios a contemplação, mas acredito já ter plantado algumas dúvidas férteis.


Sim, a beleza está em tudo, embora em proporções diferentes, mas ela só pode ser reconhecida se já estiver dentro de nós. E a uma única relatividade que neste caso existe é devida a nossa capacidade ainda limitada de reconhecer o belo. Por isso que as atividades na natureza são uma excelente oportunidade por exercitar o reconhecimento (contemplação) da beleza, pois lá não existem tantas dúvidas se algo que vemos é belo ou não.


Vemos uma árvore frondosa e: Ah! Isso é beleza!


Vemos rio correndo e: Ah! Isso é beleza!


Vemos uma flor e: ah! Isso é beleza!


Vemos uma borboleta e: Ah! Isso é beleza!


Vemos a simetria em uma folha e: Ah! Isso é beleza!


Vemos um nascer ou pôr do sol e: Ah! Isso é beleza!


Sentimos o perfume da mata e: Ah! Isso é beleza!


Ouvimos o som da água e: Ah! Isso é beleza!


Ouvimos o canto de um pássaro e: Ah! Isso é beleza!



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