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  • Foto do escritorAdnan Brentan

A noite passada eu não dormi

A noite passada eu não dormi. (24/12/2022)

Insônia? Não, escolha!

A noite passada eu fui para a natureza conhecer uma trilha desconhecida.

Para conhecê-la? Não, para me reconhecer!

O clima estava bom? A noite estava bela? Não, o clima estava entre nebuloso, úmido e com períodos de chuva fraca.


Então, por que afinal eu escolhi viver esta experiência?

Porque estava carente de um tempo comigo mesmo. Um tempo mais silencioso comigo mesmo.

Há fases em que ficamos com excesso de mundo e, embora sejamos seres sociais e necessitados de companhia, quando há excesso de mundo em nós, precisamos de tempo para recuperar espaço para nós mesmos dentro de nós mesmos.

Este excesso de mundo é o quase contínuo contato com as inseguranças coletivas, é a preocupação forçosa com as demandas alheias, com os medos alheios. Estamos sendo bombardeados cotidianamente com notícias sobre as ameaças locais ou distantes, imediatas ou futuras. Informados em tempo real sobre tudo que está dando errado e, o pior, sobre tudo que pode dar errado. Não bastasse o cultivo dos medos coletivos precisamos ser sensibilizados, cotidianamente, pelos muitos ativismos retificadores dos defeitos e fraquezas coletivos. O mundo precisa ser corrigido, as pessoas precisam ser corrigidas. O tempo todo! (será mesmo?)

Mas o que há de mal nisso? Não é bom e necessário melhorarmos o mundo (e as pessoas)?

Sim, é de grande importância tornar o mundo melhor!

Mas tenho a impressão de o que estamos fazendo é tornar o mundo mais adequado, tornar as pessoas mais adequadas.

Melhor e "mais adequado" não são a mesma coisa?

Neste caso não. Quando falo de mais adequado, falo de mais adequado a uma ideia, mais adequado a um padrão. Queremos padronizar o mundo e as pessoas!


Por isso, quase sem dormir, à meia noite deixei o morno conforto do meu lar e fui para floresta escura molhada e desconhecida em busca do conhecido sentimento de liberdade. Fui buscar a posse de mim mesmo. A posse do meu corpo gasto, da minha mente cansada, do meu coração oprimido e para esta tarefa eu basicamente precisava da minha alma silenciosa e do meu espírito luminoso.


Mas sou pai, esposo, filho, irmão, amigo e servidor (prestador de serviço) que tem responsabilidades com o mundo, portanto, para garantir que este conjunto pudesse retornar inteiro, consegui cativar a companhia de um verdadeiro amigo e irmão de alma e lá fomos nós para a floresta escura molhada e desconhecida.


Tecnologia na mão para ajudar (os puristas que me perdoem), mas, mesmo assim, nos perdemos em vários trechos. A madrugada avançava e a névoa foi substituída pela chuva, o chão molhado evoluiu para lamaçais profundos, a ladeira suave foi trocada por barrancos lamosos o frescor da madrugada se tornou frio cortante, a disposição física decaiu para um cansaço dolorido.

Mas a vida é feita de ciclos e, em algum momento, o coaxar das rãs começou a ser superado pelo canto de pássaros e uma muito tênue claridade começou a se expandir no céu por trás das árvores e arbustos.

Meu corpo pareceu se alimentar desta esperança de luz e calor e alguma vitalidade retornou tornando a ascensão mais vigorosa. Já não precisávamos da, até então, indispensável ajuda das lanternas e pudemos avançar na penumbra até o dia substituir em definitivo a noite.

Alcançado o objetivo (cume do Pico Guaricana), apesar da claridade não havia nenhum visual, mas isso não importava. O que importava é a genuína alegria que tomara conta de mim. Cumprimentei e agradeci o amigo/irmão, respiramos por alguns minutos, nos agasalhamos, já que o frio e o vento eram fortes, tirei uma foto, gravei um pequeno vídeo para lembrar do momento e iniciamos a descida apostando quem cairia mais vezes, pois eu já havia levado alguns tombos na subida.

Atipicamente demoramos quase mais tempo para descer do que para subir, pois precisava me agarrar a cada pequena árvore, raiz ou saliência firme tentando permanecer mais ou menos em pé.

O retorno foi especialmente agradável. Agora podia contemplar o exuberante trecho de floresta que percorremos somente com a escassa luz artificial de lanternas. Uma verdadeira profusão de todos os tons de verde, entremeados por cores mais escuras como o marrom, o cinza e o negro nas sombras. Tudo reforçado pelo brilho resultante da chuva que deixou a vegetação molhada. O cenário espetacular é adornado pela presença de inúmeros xaxins de um verde mais claro e vívido e salpicado com colorido de bromélias e outras flores de menor porte, mas de singela beleza.

Pudemos apreciar a imponência de enormes árvores e, também, o relaxante visual dos rios que na madrugada eram apenas ruidosos (e também relaxantes).

Após mais de sete horas, quase ininterruptas de aventura, retornamos ao ponto de origem onde fiz questão de tomar um gelado e oportunamente revigorante banho de rio. E o sentimento de liberdade já conquistado na madrugada foi consagrado por este cerimonial de submergir nas águas. A "sujeira" interna foi lavada pela trilha e a sujeira física agora era lavada pela água pura e cristalina.

Agora, indiferente aos resultados do que antes apresentava uma suposta complexidade de objetivos, nesta aventura/ritual, não tenho certeza se os alcancei, mas isso não importa. O que importa é que voltei com um sentimento de alegria e leveza. Um sentimento de contentamento e aprovação da minha própria sina. Recuperei um pouco do terreno interno invadido pelo mundo.



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